terça-feira, 15 de julho de 2025

Argumentos são discutíveis, opiniões não...

 


Com frequência maior do que considero saudável, reparo — em discussões e pretensos debates — colocações e posturas que, para dizer a verdade, me constrangem um bocado; pois, vindas de pessoas inteligentes, só fazem reiterar minhas suspeitas quanto a eficácia da (des)educação tupiniquim.

 Falo da liberdade que as pessoas se dão para, com insistência, defenderem ideias a respeito de assuntos sobre os quais estão completamente desinformadas ou, na maioria dos casos, possuem apenas informações aleatórias, jornalísticas, toscas, oriundas do senso comum e de páginas de curiosidades da internet.

Tal fenômeno pode ser constatado em conversas corriqueiras sobre qualquer assunto. Se considerarmos tais opiniões quando inseridas em conversas informais e descompromissadas, não há do que se queixar. O problema é que as gentes costumam confundir conversa com debate e opinião com argumento. Erro muito comum, mas também muito danoso. O que chamamos de opinião, por si só, é incapaz de sustentar um debate saudável.

O termo “debate” se refere a um tipo específico de interação onde duas ou mais pessoas travam julgamentos diversos a cerca de um assunto, usando, para a avaliação desses juízos, um ou mais critérios — lógica, conhecimento técnico, conhecimento científico, argumentação crítica, conhecimento filosófico, uma mistura de saberes ou qualquer outra área do conhecimento — sempre de forma lógica, racionalizada, analítica e argumentativa.

Em outras palavras, é preciso ter uma quantidade mínima de informações e argumentos para defender uma ideia num debate.

Uma opinião (exceto a tal ‘opinião bem fundamentada’, que muitas vezes é, na verdade, um argumento) é apenas uma escolha arbitrária de ideias fundamentados nas preferências individuais de alguém. Opiniões, em geral, surgem de fatores menos conscientes; como gostos, preferências, propagandas bem assimiladas, informações soltas que pegamos por aí e, claro, os famosos pré-conceitos.

Já os argumentos surgem de análise, reflexão crítica, raciocínio lógico e informação a respeito do assunto.

É quase impossível chegar num resultado quando debatemos considerando apenas opiniões. Há muitos casos clássicos dessa dificuldade. Vejamos um problema estético. Minha namorada acha lindas algumas candidatas do American Next Top Model, enquanto eu acho todas uma magrelas-cadavéricas-sem-carne-pra-apertar.

É óbvio que temos preferências subjetivas estéticas bem diferentes. Por isso é completamente nonsense discutir qual preferência é melhor sem critérios objetivos para julgar. E nem eu nem ela temos lá bons critérios objetivos pra julgar esteticamente. Ora, nós nunca nos informamos a respeito desse assunto, por isso sei que me encontro incapaz de debater dignamente sobre o tema.

A consequência é que nós até conversamos, mas jamais debatemos a esse respeito. Por outro lado, conheço um mínimo sobre filosofia pra oferecer argumentos contra o relativismo moral ou a dialética marxista, e um mínimo de economia para compreender os problemas a respeito da teoria da exploração e julgá-la como ultrapassada e equívoca. São conhecimentos e informações que adquiri com algum estudo, análise e dificuldades. Estou certo que ainda tenho muito a aprender e muito o que aprimorar (aliás, sempre terei), contudo, o fato é que, para o bem ou para o mal, me informei um mínimo do mínimo sobre tais assuntos, o que me permite oferecer alguns argumentos aos invés de meras opiniões.

Infelizmente, porém, tenho me deparado com pessoas — muitas vezes inteligentes e queridas — que se ofendem quando deixo claro que não posso levar a sério suas opiniões, uma vez que, pelo que dizem, fica patente que não estão informadas sobre o que estão falando.

Por motivo que me escapa, imediatamente sou tomado como um tipo de maníaco dogmático dono da verdade. Se explico o porquê não posso concordar, meus argumentos são tomados como opinião; se mostro as culminâncias bizarras de algumas ideias, meus ditos são levados para o campo pessoal e sou acusado de praticar argumento ad-hominem.

Porém, curiosamente, quando converso com pessoas minimamente informadas (ou mais), recebo elogios, compreensão e aprendo o que está equivocado na maneira de pensar deste ou daquele autor ou neste ou naquele argumento, e se critico determinadas ideias, me recomendam livros com uma abordagem mais esclarecedora ou com certa desconstrução de mitos. 

O mais triste é que as pessoas que se ofendem com o que digo preferem me considerar um mau-caráter metido a sabichão do que pesquisar sobre o que falei. É realmente uma pena, pois “a verdade continua sendo verdade mesmo quando dita por um louco”. E eu, que sou completamente pirado, tenho apenas duas qualidades e quinhentos quatrilhões de defeitos. É notável que sou debochado, escroto e auto-complacente, mas se estou errado ou certo no que digo, isso só pode ser descoberto analisando O QUE digo e não o COMO digo.

Sendo sincero, embora me impressione negativamente o fato da maioria das pessoas — inclusive alguns bons amigos — desconhecerem a diferença básica entre opinião e argumento, felizmente já aprendi que, no país do homem cordial, tudo é levado para o lado pessoal, de modo que há coisas que você realmente não deve falar.

De qualquer modo, seria bom que as pessoas soubessem que opinião não se discute, mas argumento sim.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Notas Sobre o Sarau Solidário e as Coisas Legais Que Me Aconteceram Lá - Uma aventura cultural em oito breves capítulos








Capítulo I- O Misantropo No Rolê

Desde que voltei a morar na Baixada Fluminense, decidi que o mais inteligente era conhecer a cultura local, familiarizar-me com os artistas e os eventos para escrever a respeito, documentando e celebrando as conquistas culturais da comunidade. Mas não seria tarefa fácil, porque incluiria sair de casa, ir a lugares, conhecer pessoas, sorrir e socializar - pecados fatais para um misantropo como eu.

Capítulo II - Preparado Para o Pior e O Segredo dos Caminhoneiros

Felizmente, já inventaram as drogas, acessórios divinos que nos permitem o maravilhoso estado da desinibição. Munido da quantidade certa de álcool, torno-me capaz de encarar qualquer evento e qualquer conversa; mesmo ao som de música ruim e com pessoas pouco simpáticas. Assim, quando decidi me aventurar no Sarau Solidário do Projeto Professor Castelano, que eu ainda não conhecia, e do qual eu duvidava, fui preparado para o pior.

Aviso ao leitor que esta é, aliás, a chave de ouro da vida: prepare-se para o pior e então, subtamente, verás o mundo desabrochar em vários pequenos ou grandes eventos agradáveis. O Destino (ou Deus, se você acredita nele) é irônico e gosta de nos surpreender. Por isso a felicidade é como uma borboleta: se você a persegue incansavelmente ela sempre foge, mas se você volta sua atenção para as outras coisas, ela vem suavemente e pousa de mansinho em seu ombro.

Li essa frase num parachoque de caminhão e nunca mais a esqueci. Cito-a porque creio que é um dos grandes segredos do universo. Que Filosofia que nada, que baboseira quântica que nada; a verdadeira sabedoria está nas frases de parachoque de caminhão! Ah, como me arrependo de não ter assistido Carga Pesada! Eu teria sido um homem mais sábio e mais feliz! Mas, continuemos...

Pois bem, o que eu fiz foi voltar-me para os aspectos negativos da vida na Baixada, e então, quando coisas boas acontecem, desfruto-as como se fossem a materialização de um microparaíso na terra. Aconteceu que o Sarau - que foi mais que um Sarau -, do qual eu pouco esperava, foi evento que muito me surpreendeu. Tive várias descobertas positivas, tanto que infelizmente não poderei falar mal do evento. E vocês não sabem como isto - não poder falar mal - é triste para um cronista cultural!

Capítulo III -Decidi Falar Mal - Ou: O Vacilo da Produção

Na verdade, para que não digam que não falei mal, farei ao menos uma reclamação. O evento estava marcado para começar às 16:00 horas. Lá cheguei por volta de 16:20. Via-se os produtores organizando o palco e dois ou três gatos-pingados chegando com alimentos não perecíveis para a doação (que foi um dos acontecimentos do evento). Senti falta de alguém que recebesse as pessoas e de sinalizações públicas, como cartazes, explicando ao público onde colocar os produtos da doação. (Mais tarde, quase duas horas depois, puseram uma mesa onde foram depositadas as doações). Ainda no início, vários produtores saíram e o ambiente ficou quase totalmente abandonado, exceto pela presença dos já mencionados gatos-pingados e do DJ júliomoska, que, aliás, fez história esbanjando uma playlist recheada de perolas.

Eu achava que haveria um Sarau ali, mas começei a ficar em dúvida. Se te dizem que algo vai começar às 16:00 e quando é 16:40 ainda não tem quase nada rolando e os produtores do evento sumiram, você acaba se sentindo meio idiota. Eu sei que o atraso faz parte da alma fluminense, mas também acho que o evento poderia ter sido melhor nesse aspecto. Que disponibilizassem um cronograma com os horários estimados das atrações ou que anunciassem o início às 17:00. Claro que o erro não diminui o mérito do evento, mas foi um pequeno vacilo...

Capítulo IV -Reencontros, Arte e Nostalgia

Pouco antes das 17:00 os artistas responsáveis pela pintura das geladeiras literárias chegaram. Pouco depois, já estavam com as mãos na massa, ou melhor, nos pincéis. Um deles era o meu saudoso amigo Alan Tavares (à esquerda na foto abaixo), que há mais de dez anos eu conheci pelo apelido de "Alan Jiló" (nunca soube a origem do "Jiló"). 

Por causa dos vários anos longe do Rio, havia perdido o contato com Alan. Portanto, quando eu soube que ele seria uma das atrações do Sarau, achei incrível; decidi que seria bom revê-lo e conferir sua evolução artística. Antes que ele começasse a pintar, cheguei chegando e aludindo aos velhos tempos. Alan lembrou-se de mim e recebeu-me com companheirismo e simpatia. Logo descobri que o meu amigo havia se tornado um artista talentoso, respeitado e integrado à comunidade. Ao contrário deste aqui, que fracassou em tudo na vida e que tem preguiça de dizer bom dia ao vizinho.

Eram duas geladeiras, uma sendo pintada por Alan e outra pelo agradável e também talentoso Luiz Arthur, que eu ainda não conhecia. Acabei descobrindo que Luiz é o namorado da Sabrina Coelho, a divertida e metida ruralina com quem eu costumava esbarrar nos eventos artísticos da cidade. Quando Sabrina chegou, trouxe com ela um ar de familiariedade e nostalgia, de modo que o ambiente ficou ainda mais confortável.


Capítulo V- Respeitar a Arte e Outras Lições

Na interação com Alan, fui convidado a dar alguns microrolês nos arredores, já que ele, que só é magro de ruim, estava esfomeado. No percurso, notei a desenvoltura social de meu amigo com os populares da região. É conhecido e considerado, o que acho algo importante e valoroso. O estereótipo de artista depressivo, recluso e alienado é fatal e não passa disso: um estereótipo.

Na caminhada, confessei que os anos me fizeran pensar que ele estava certo no passado, quando, ainda adolescentes, tíveramos o projeto de um quadrinho de Samurai e eu, mais americanizado impossível, propus o nome de Samurai Jimmy! Na época, Alan questionou minha escolha. Por que não poderia ser um nome brasileiro? Alan estava certo. Poderia e deveria! Felizmente a nossa HQ não vingou, caso contrário hoje em dia eu ficaria ainda mais constrangido com a minha submissão cultural de antigamente.

Ainda na adolescência, lembro que eu, que também desenhava, evitava desenhar de graça. Também nisso fui corrigido pelo jovem artista, que me sugeriu desenhar por paixão e não por ganância. Disse, por exemplo, que eu deveria distribuir desenhos para as belas meninas, os amigos e familiares. Na época eu fiquei horrorizado com a proposta. Hoje, porém, eu reconheço que o amigo tinha razão.


Alan Tavares mandando na pintura. Foto gentimente cedida pela talentosa Ana Beatriz.


Agora, vejamos. Eu, que fui ganancioso, jamais ganhei muita grana com desenho e acabei parando de desenhar. E o meu parceiro Alan, que sempre fez por paixão, e na maioria das vezes de graça, agora tirava onda como artista convidado e ainda receberia um troco pela atuação. É de fazer pensar, não?

E provando que ele é mesmo um cara fora da caixinha, Alan, enquanto caminhávamos, confessou-me que ele jamais bebia quando ia desenhar e pintar. Para ele, era uma questão de respeito. Quase uma espécie de sacralização do fazer artístico. Achei inspirador. Mesmo assim, não resisti e tomei uma Budweiser.

Na minha memória o reencontro com Alan, depois de tantos anos, ficará resumido num singelo acontecimento. Enquanto ele pintava a geladeira, curiosos e crianças se aproximavam para admirar seu talento. Gaiato, eu dizia aos incautos que fora o tutor de Alan na arte do desenho, que lhe ensinara todas aquelas técnicas - mentira, claro. Foi quando, admirado, um senhor de aparência popular, de cerca de meia idade, encarou-me e, referindo-se a Alan, indagou: Ele é Artista, não é? Com a dicção cheia e um sorriso de orgulho fraternal no rosto, respondi afirmativamente:

"Sim senhor, ele é Artista. Ele, definitivamente, é Artista."


Capítulo VI- Gente Bacana, Boêmia e Jovem

Com o passar das horas, cada vez mais gente chegava, e aquele lugar que começou vazio e tímido acumulava transeuntes, expectadores e platéia. Depois da terceira Budweiser, eu era o carisma em pessoa. Fiz questão de falar com algumas mocinhas literatas e simpáticas, com os organizadores e com os amigos dos meus amigos. Não devo ter causado boa impressão, mas aí também já é querer demais. A infâmia é minha origem e será meu destino.

Com preguiça de escrever o nome de todo mundo, mas eram todos gente boa!


Uma menina particularmente inteligente - Senhorita C - mostrou-se mais interessante do que eu suspeitava, então, além da boa conversa, fui obrigado a adicioná-la no Instagran. E como o álcool me fazia sociável, dei o pontapé inicial na prosa com outras divertidas meninas, peguei o Instagram de todas. O leitor que não me tome por promíscuo, taradinho, ou malicioso, pois minhas intenções giram sempre em torno da elevação cultural e sou apenas um blogueiro carente que gostaria de ter alguns leitores e leitoras para minhas mal escritas crônicas. Mas, sim, algumas meninas eram bem bonitinhas e caso eu não fosse um monge da cultura, e fosse uns 10 anos mais jovem, e tivesse um emprego, e não fosse tímido, quem sabe não rolava uns beijinhos?

Todo mundo me tratou muito bem, e eu me esforcei para ser escroto e leviano, mas infelizmente não obtive muito sucesso. Parece que estou amaldiçoado a sempre ser querido por onde quer que eu ande. Lastimável. Difícil saber se a culpa é do meu sorriso sincero ou do meu olhar sedutor. Será que nunca serei infame como um Lima Barreto, um Marcelo Mirisola ou um Diogo Mainardi? Coro só de pensar. Deus me livre de ser querido na comunidade.

Chegou a noite e com ela vieram os boêmios, que são como corujas. Entre outras corujas, a noite trouxe outro amigo de adolescência, Luiz Felipe, o famoso Feijão, figuraça e monumento histórico dos rolês etílicos da cidade. Como Feijão conhece todo mundo, apresentou-me alguns de seus amigos e amigas.

Notei que a maioria dos frequentadores do evento eram jovens. Eu odeio jovens, mas naquele momento achei que talvez nem tudo estivesse perdido, afinal.

Capítulo VII - O Brilho dos Artistas

Além da atuação artística dos pintores de geladeiras literárias, muita coisa aconteceu. A mixagem, os samples e os beats do DJ Julio Moska (foto ao lado) fizeram muitos corpos se movimentarem, inclusive o meu. O cara desfilou bom gosto tocando remixes de Emicida, O Rappa, Natiruts, Marechal e artistas que eu não conhecia, como a interessante Ébony. Fiquei até surpreso. Tenho que procurar mais sobre o trabalho dele.

Arrasando na fotografia do evento estava a incrível Ana Beatriz, que faz um impressionante trabalho com seu projeto de fotografias femininas, e que foi certamente uma das pessoas mais legais que eu conheci no rolê. Posso tê-la atrapalhado um pouco, entrando na frente da câmera, mas eu juro que não foi intencional!

Alguns músicos se apresentaram, entre eles o rapper Giga, PretoOrfeu e Layla. Giga mandou bem no rap e mostrou domínio de palco. Mas como não sou um cara do rap, fiquei impressionado mesmo foi com as atuações de PretoOrfeu e depois com a de Layla, dois artistas locais que eu não conhecia. PretoOrfeu, numa performance intimista, com sua voz melodiosa, cantou uma canção autoral muito bonita e forte, que revelava sua sensibilidade poética admirável. Material tocante e profundo. Tive que ir lá cumprimentá-lo, não é todo mundo que tem cabeça para produzir canções de letras poderosas.

Layla (foto abaixo) foi a revelação da noite, ao menos para mim. A menina magrinha e que para um desavisado passaria por tímida e quieta mostrou a maior desenvoltura musical exibindo um repertório de Rock e MPB; cantou Cássia Eller, Raul, Charlie Brown, Pitty, O Rappa e muito mais. Sempre em interpretações inspiradas e afinadíssima, dedilhando seu violão elétrico com a maior potência, tanto que parecia uma guitarra, mandando bem mesmo quando tropeçava num ou noutro acorde - e aí ela fazia uma divertida careta, tirando sarro da situação. A guria é animada demais, interagiu um bocado com a platéia e esbanjou talento e carisma. Cantou até a breguíssima Ana Júlia, que é careta e cansativa, mas que ela quase deixou boa.

Teve ainda a apresentação de outro rapper, que eu não pude ver, e também o recital de poesia. Nesses momentos eu já estava demasiado sonolento (culpa do álcool) para prestar atenção, mas quem viu disse que foi bom, e se disse é porque deve ter sido mesmo. Já ia me esquecendo da apresentação de um documentário sobre a aventura que foi a luta pela emancipação do município de Queimados, e houve ainda a fala solene do secretário de cultura, que parecia um sujeito relativamente jovem e que vem apoiando a movimentação cultural civil no município.

Esqueci alguma coisa? Sim: esqueci de mencionar que vários livros interessantes foram doados. Na hora, dei algumas cotoveladas, alguns empurrões e pescotapas nos leitores concorrentes, puxei os cabelos de algumas menininhas inocentes e deixei bem claro que aqueles livros eram todos meus por direito. Mas as malditas não cederam. Então, depois uma luta sangrenta e cruel, consegui pegar alguns livros interessantes, entre eles: A Origem das Espécies, A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água e Uma Mente Brilhante, a biografia do matemático e gênio esquizofrênico John Nesh. No total, arrematei uns sete livros, fazendo uma pequena pilha. Enquanto eu guardava o produto de meu saque, Sabrina, decepcionada, sugeriu que minha conduta não fora das mais elegantes e respeitáveis. Mas que bobeira, os livros estavam lá para doação, não é? Pega quem pode - ou quem é mais rápido e mais forte!

Capítulo VIII- Final- A Perigosa Ideia de Castelano

Cheguei no rolê às 16:20 e saí às 21:10. Quando saí, reparei na mesa de doações; os mantimentos e roupas doados faziam pilhas de um metro e meio. Muito bom. O Sarau Solidário, além de muito bacana, artístico e divertido, foi mesmo solidário.

Se me pedissem a imagem resumida que ficará do rolê, eu citaria a frase que um sorridente Felipp Castelano proferiu quando conversávamos: "aonde eu vou tem livro, bicho".

O organizador Felipp Castelano e o  famigerado autor deste blog


Nisso comentava sobre sua mania terrível e admiradora de espalhar livros pelo município. Pobre Castelano, me pergunto se ele já leu Dom Quixote. Será que ele sabe o quanto os livros são perigosos? O que os livros podem fazer com as pessoas? Eu era um sujeito normal, mas começei a ler muito e vejam o que me aconteceu: fiquei tantã; totalmente bilu tetéia. Livros são agradáveis, mas perigosos...

Encerro esta crônica com uma agradecimento e menção honrosa ao organizador, um dos grandes agentes culturais da Baixada, um cara que faz a diferença, ele mesmo: O Professor Felipp Castelano. Não cheguei a votar nele na última Eleição, mas isso é porque sou marginal, anarquista, vagabundo e não atualizei meu título. Agora tenho um motivo para atualizá-lo. Castelano para Prefeito, minha gente!

Valeu, Felipp, vou colar nos próximos rolês só para poder, com muito carinho e respeito, catar livros, charlatar as tuas alunas e falar mal da organização dos teus eventos. Eis a única conduta decente que se pode esperar de um cronista cultural ébrio e decadente. Sabe como é, tenho que manter a pose.

Outra menção honrosa, desta vez para a queridíssima Ana Beatriz, que com muita gentileza me permitiu dispor das fotos usadas nesta crônica. Valeu, Bea, tu é demais!

Abraços demorados para quem leu tudo e chegou até aqui. Especialmente se for mulher. Especialmente se for bonita. Especialmente se for mulher, bonita e solteira. E mais especialmente ainda se for mulher, bonita, solteira e tiver uma queda incontrolável por cronistas decadentes.

Nos vemos no próximo rolê, caro leitor. E ai de ti se não me pagar uma cerveja. Se a minha língua ficar seca de álcool, não me faltará o veneno da calúnia, e aí tua orelha haverá de queimar na ocasião da próxima crônica. Salve meu vício, que te salvo a reputação.

Nada mais justo, certo?

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Amônia Na Baixada E Alguns Sorrisos Inusitados


Era por volta de oito horas da manhã de um Domingo. A movimentação social nas ruas era incipiente, apenas algumas pessoas aqui ou ali. Nada parecido com a muvuca que marca o centro da cidade nos outros dias da semana.

Calmos e despreocupados, eu e Carlos caminhávamos... Até que divisamos uma cena inusitada na praça, na área que fica ao lado da Igreja. Entre dois quiosques, uma jovem de roupas curtas aliviava suas necessidades, ou demarcava território, ali mesmo, na rua. Em tom jocoso, mostrando um misto de irreverência e constrangimento, pediu para que eu e Carlos não a olhássemos. Atrás dela, uma amiga, morena corpuda e também de roupas curtas, gargalhava, divertindo-se com a situação.

Carlos olhou de relance e não mais. Eu olhei e continuei a olhar. (Mulher tem esse efeito em mim). Acenei, inclusive, para a coadjuvante morena e corpuda. Ela respondeu com aceno e um belo sorriso. Seriam prostitutas? Baladeiras sofrendo as consequências de um sábado à noite? Não sei, mas achei que a morena era, além de gostosa, simpática. A coisa toda não durou mais do que dois minutos, mas foi o suficiente para aclimatar meu amigo ao zeitgeist da Baixada Fluminense ou ao espírito informal do fluminense, ou do carioca, ou, ainda, a essa permissividade corporal tão comum que existe por estas bandas.

Foi uma pequena cena de escracho público, adorável quando envolve mulheres. É o diferencial da Baixada. Não somos polidos, nem cultos e nem elegantes. Somos espontâneos, precários e meio avacalhados, mas somos divertidos, animados e nosso sorriso é fácil e maravilhoso. E se estivermos na pior, faremos piada e sorriremos pra você. E se algum amigo estiver em apuros, ajudaremos, sorriremos e faremos mais piadas. Tem gente que gosta, tem gente que odeia. Eu mesmo não gosto muito. Prefiro o zeitgeist da Finlândia.

Quando chegamos ao ponto de ônibus, nossas narinas foram imediatamente violentadas pelo odor acre da amônia humana. É por isso que eu gosto da Baixada: aqui a pobreza não se intimida, não se acanha, não se tapa com outdoors, como fazem na Avenida Brasil ou na Linha Amarela. Não, nada disso, senhores. Somos transparentes. Aqui o cheiro de urina velha de mendigo mijão empesteia o ar em quase qualquer ponto de ônibus ou canto imaginável. Reza a lenda que existe até uma confraria secreta de mijões, cujo único e supremo objetivo é mijar em pontos de ônibus e outros lugares indevidos.

Se bem que não é possível culpar os mendigos. Mijar na rua é, na verdade, uma das altas habilidades de sobrevivência cultivada por fluminenses e cariocas. Eu mesmo, apesar de um pouquinho culto, já fiz algumas vezes, quando bêbado. E jamais imaginaria que um brasiliense polido e refinado como meu primo... Porém, para minha surpresa, aconteceu: Carlos anunciou que precisava de um banheiro para mijar. Felizardo! Expliquei a ele que nós fluminenses somos muito sofisticados, performáticos e vanguardistas, e que por isso muitos de nossos bairros da Baixada representam grandes banheiros públicos: com muito lixo, vômitos de bêbados, gente quase pelada dançando e cheiro de urina pra todo lado. Sugeri que ele fosse a um cantinho e jorrasse suas águas por lá. Indiquei o local.

Enquanto Carlos esvaziava a bexiga na velha árvore ao canto da rodovia ainda deserta, eu me perguntava se deveria fotografa-lo. Era sua iniciação na Arte Quase Secreta de Mijar na Rua. Arte essencialmente fluminense.
Ele, o bom e ponderado Carlos, que era meu primo mais intelectualizado, vindo da Capital, jovem e cheio das mais altas aspirações filosóficas e espirituais, ali, vitimado pelas urgências de uma biologia impiedosa. Era cena pitoresca e curiosa, de grande importância histórica e biográfica; digna, portanto, de registro. Decidi, porém, não constrangê-lo. Não tirei foto alguma.

Depois me arrependi. Devia ter tirado. Garantiria-me umas boas risadas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Maldita Saraiva!



Aconteceu na Saraiva do Shopping de Nova Iguaçu. Acompanhavam-me um amigo e uma amiga. Raramente frequento livrarias (prefiro os sebos, por questões financeiras e estéticas), mas como o amigo, generoso, queria me presentear, e como já estávamos no Shopping, decidi vasculhar a livraria de lá. Pensei em comprar ao menos um livro que quisesse ler e ainda não encontrara em sebos ou pdf's.

Eu tinha dois romances em mente: A Coisa Não Deus, de Alexandre Soares Silva, e Até Você Saber Quem É, de Diogo G. Rosas. O primeiro, um romance bem humorado sobre anjos materialistas e ateus, já o segundo, sombrio e pesado, fala sobre um escritor curitibano atormentado pelo diabo. Ansioso para ler os dois, compraria o que estivesse mais barato.

Enquanto meus amigos, sentados em poltronas da livraria, colocavam suas tretas em dia - eles se amam, e por isso vivem brigando - eu vasculhava as estantes de Literatura Brasileira. Chamou minha atenção o livro novo do Chico Buarque. Folheei e parecia interessante. Pensei, meio que debochando: "todo brasileiro culto tem que ler o Chicão um dia". O cara é membro honorário do panteão de heróis da cultura brasileira, celebrado pela esquerda e invejado pela direita, o tipo de autor que é importante conhecer.

Deixei o Chico e encontrei um volume de crônicas e outros textos da Hilda Hilst. Abri numa página aleatória e começei a ler. No segundo parágrafo o texto já estava tão bom, tão interessante e tão irreverente que me senti obrigado a mostrá-lo aos amigos. Fui lá nas poltronas e interrompi a conversa. "Vocês precisam ler isto aqui", falei. Delimitei o trecho e aguardei que lessem. Passados alguns minutos, o resultado: "Cara, muito bom!" Quem é o autor?
"Autora, na verdade. É uma mulher. Chama-se Hilda Hilst e é uma das grandes escritoras nacionais", respondi. Meu amigo arregalou os olhos maravilhado, e então, como temos uma amiga que gosta muito de Clarice Lispector, eu emendei: "Que mané Clarice Lispector! O negócio é Hilda Hilst, rapaz!". Ele sorriu.

Até nossa amiga presente, leitora de besteiras como Augusto Cury, achou interessante (reação que eu, sinceramente, não esperava). Era uma crônica relativamente simples, na qual Hilda comentava sobre alguns crimes da época. Bateu-me enorme vontade de comprar o livro, mas custava 70 reais - 69, 99 pra ser exato - o que achei abusivo para meu bolso, ou para o bolso do meu compadre.

Feita a propaganda, deixei os amigos conversando e voltei à estante. Lá encontrei mais autores legíveis. Marçal Aquino, Cristóvão Tezza, Moacyr Sciliar e outros escritores contemporâneos que me parecem interessantes mas que ainda não li. E eis que mais abaixo encontro o tal: A Coisa Não Deus, do Alexandre Soares Silva. Fiquei eufórico porque realmente não esperava encontrar o livro. Mas a euforia não durou muito. A capa estava danificada: tinha uma marca, uma linha, de cerca de dois centímetros, com afundamento do papel, como se alguém tivesse martelado o livro com único mas fortíssimo golpe.

"Eles devem ter mais no estoque, não é possível que esta seja a única edição da livraria", foi o que pensei. E como eu já estava cansado de procurar o livro do Diogo G. Rosas, achei que era hora de consultar um atendente. Fui até um jovem com camiseta da loja. Mostrei o livro e a marca deletéria, e perguntei quem eu deveria consultar para saber se tinha na livraria o outro livro que eu procurava ou outra versão do livro que eu tinha em mãos.

O rapaz, com olhar de iletrado, tentou ler o título do livro, balbuciando as sílabas, até que concluiu: "A Coisa Não É de Deus, Alexandre Soares Silva". Fiquei irritado. Achei ofensivo. Uma pessoa que não conhece a estrutura com "negativa + palavra" ("não isso", "não aquilo", como em "Não-Amor", ou em "Não-Vida") não deveria trabalhar numa livraria. Esse enorme erro, digno de um retardado portador de um dígito de QI, ofendeu-me a sensibilidade literária e cognitiva, até porque fazia sugerir que eu, alma refinada e culta, estava comprando um livreto de temática evangélica. Óh Horror!

Mas era uma livraria na Baixada Fluminense. Eu não deveria esperar demais. Deveria estar feliz porque tinha uma livraria ao invés de um Baile Funk cheio de traficantes com fuzis vendendo cocaína ou milicianos vendendo internet pirata. Então deixei o rapaz inculto e crente, e fui até o atendente por ele recomendado. Perguntei se tinha o livro do Diogo G. Rosas. "Até Você Saber Quem É". Não tinha. "Ok, terei de levar este aqui mesmo, pensei". E perguntei se havia outra versão, não danificada.

Não tinha.

"Que merda", pensei. Perguntei quanto custava o livro. 46 reais! Ora, mas nem a pau que eu, que sou quase mendigo, levaria um livro zoado, ainda mais por 46 pilas! Argumentei que o livro estava avacalhado e perguntei se me faziam desconto. O funcionário explicou que o desconto máximo permitido pelo sistema naquele livro era de 4 reais. Ou seja, eu poderia comprá-lo pela bagatela de 42 bonoros. Quase o mandei à puta que o pariu e tive ímpetos de matá-lo à pauladas.

Nesse momento, meus amigos já estavam ao meu lado. "Não vou levar", eu disse, ressentido com a incompetência geral da livraria. Meu amigo, sem saber de minhas recentes desventuras; e, portanto, sem compreender meu estado de espírito, retrucou: "Vai deixar de comprar o livro por causa de quatro reais?". E quando ele disse isso, por mais errado que ele estivesse, eu me senti a pessoa mais mesquinha do universo. Pensei em explicar minha revolta, que era totalmente racional. Mas concluí que levaria algum tempo e eu já estava desanimado. Eu só queria encerrar minha presença naquele lugar. E se ele que iria pagar não se importava, porque eu me importaria? O jeito era levar aquela merda ou sair de mãos abanando. E nem era eu quem pagaria, afinal.

Deixei meu amigo pagar e levei o livro. Livro zoado, marcado, avacalhado, por 42 reais. Da maldita Saraiva. Depois, enquanto almoçávamos, expliquei a eles minha revolta e fizemos uma pesquisa na Amazon. O preço do livro estava 18 reais pela plataforma (e com frete grátis em conta prime).

"É...Demos mole..." Disse o meu bom e caridoso amigo.

"Fui tapeado!" respondi, fazendo referência à célebre frase do Pica Pau.

No prazo de uma semana, com toda a calma do mundo, li o livro. É bem escrito, e tem estilo, tem panache, mas achei ruim e não me empolgou muito - mas dei risada e achei divertido. Certamente não valia meus 42 reais, ao menos não aquela edição, zoada.

A conclusão disso tudo é uma só: Madita seja a Saraiva, os donos da Saraiva, o sistema da Saraiva, as hipsters gostozinhas de cabelo colorido que frequentam a Saraiva, e os funcionários da Saraiva. Da próxima vez que eu for a esse antro pegarei o livro mais caro, levarei ao canto mais escuro, abrirei e o rabiscarei todo, desenhando vários caralhinhos voadores de caneta, só de birra e vingança.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Lembrança do Sebo do Vicente


  O famigerado Sebo do Vicente

 

Eis um dos registros mais icônicos de minha mocidade. Estava com meus amigos no famigerado Sebo do Vicente, o único da pequena cidade de Queimados, na Baixada Fluminense, interior do Rio de Janeiro. Pela foto, fica a impressão de que nós dopamos o senhorzinho e saqueamos o lugar. Se foi essa a intenção zombeteira do fotógrafo, deu certo. Mas o senhor dorminhoco não era o Vicente - aliás, eu não faço ideia de quem era.

Esse era, com toda a certeza, um dos sebos mais undergrounds do Rio de Janeiro. Primeiro pela desorganização claustrofóbica que, como se pode ver, era ímpar. Segundo pelo fato esquisito de que o Vicente também vendia, no sebo, temperos variados, de modo que o lugar era infestado pelo cheiro de orégano. E terceiro pelo fato de que Vicente, extremamente cordial, costumeiramente oferecia café enquanto lia uma Playboy antiga e comentava os pentelhos da Cláudia Raia.

Apesar das bizarrices, o sebo deu bons frutos. Acreditem ou não, um de nós comprou o clássico Laranja Mecânica por uns cinco reais lá. Eu consegui uma coletânea do Will Durant, meu historiador preferido, por uma pechincha; além de muitos quadrinhos no formatinho.

Isso foi há quantos anos? Dez, doze? Tempo demais. Parece até coisa de outra vida...

Sobre Este Blog


Bicho do mato, evito sair de casa o máximo possível, exceto quando descubro algum rolê cultural interessante. Quando em Brasília, por exemplo, eu frequentava festas noturnas (de rock alternativo), sebos, barzinhos universitários, bibliotecas e feirinhas de livros. Já tinha me acostumado e apreciava a vida cultural na capital. Por isso, quando voltei a morar no estado do Rio de Janeiro, na infame Baixada Fluminense, fiquei um pouco desesperado.


Antigo morador de Queimados, sabia (ou achava que sabia) que o município, que foi considerado o mais violento do Brasil em 2018, não tinha expressividade ou relevância cultural. Sem sebos, contava apenas com duas ou três pequenas livrarias evangélicas e uma biblioteca municipal que não passava dum quartinho abafado.

O jeito, pensei, era recorrer à agitação cultural do Centro do Rio. Lapa, Botafogo, CCBB, etc. Mas aí, como não tenho carro, teria que ir de trem, ou de ônibus. E se fosse num rolê noturno, como eu faria pra voltar durante a madrugada e bêbado? Seria arriscado e imprudente. Rio de janeiro é Rio de Janeiro, Baixada é Baixada. Melhor não dar bobeira: vacilou, perdeu.

Então pensei em procurar algum evento mais perto. Afinal, a Baixada é região que integra vários municípios. Queimados era culturalmente inexpressivo, mas Nova Iguaçu, pelo que me lembrava, era mais cultural: tinha centro de cultura, cena de rock independente,  escolinha de xadrez, feirinha de livros, cursos de desenho, alguns sebos, algumas livrarias, FAETEC, CEFET e um polo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), além das boates e bares.

Duque de Caxias, São João de Meriti, Paracambi e Nilópolis eu só conhecia de nome. O que poderia ter de cultural e interessante rolando nesses municípios? Era hora de descobrir.

Meu foco, claro, é conhecer o mundo dos livros e dos escritores da região. Mas também pretendo escrever sobre música, mídia alternativa, fanzines, blogs, coletivos, livros e artistas locais, desde que me despertem o interesse.

Pensar e Escrever sobre a Baixada Fluminense

                       


Cresci na Baixada, mas fiquei muito tempo longe. Morei e estudei na capital. Lá me envolvi com traficantes, seitas malucas, anarquistas e marginais da contracultura. Encontrei um amor, perdi dois, arrumei um bocado de confusão, perdi o emprego e fui praticamente expulso da graduação. Derrotado, sem grana e sem perspectiva, fui obrigado a pedir socorro a meus irmãos e progenitores - que, bem ou mal, e mesmo a contragosto, sempre me acolheram. E foi assim que, depois de muitos anos, me vi de volta à Baixada Fluminense.

Eu havia encorpado minha bagagem intelectual e já escrevia regularmente, mesmo que sem grandes pretensões literárias. Notei que a Baixada continuava o mesmo lugar decadente que sempre fora. Na verdade, era só agora, só depois de viver fora e adquirir alguma noção de como é o mundo da classe média e de como são os estados planejados, que eu conseguia olhar (o Rio de Janeiro e) a Baixada com a lente apropriada.

Antes, quando habitual morador, a vida por estas bandas não me surpreendia. Meu olhar era o olhar comum, pois, por mais precária que a região fosse, era tudo o que eu conhecia do mundo. Os estudos que fiz na capital, e também em outros lugares, acentuaram minha consciência geográfica, histórica e cultural. Agora, de volta à Baixada, era impossível não ficar surpreso com o modo de vida das pessoas da região. Muitas coisas desagradáveis, interessantes, curiosas ou incômodas eu simplesmente havia esquecido ou nunca havia refletido a respeito previamente.

É um lugar esquecido, mal governado, precário e problemático. Cheio de histórias peculiares e inusitadas, e outras tantas repetitivas, previsíveis. Achei que seria importante escrever a respeito da região, especialmente sobre o município onde atualmente resido. Registrar algumas histórias de uma perspectiva que só um doido como eu poderia considerar. Se for útil a algum leitor curioso, tanto melhor.


Argumentos são discutíveis, opiniões não...

  Com frequência maior do que considero saudável, reparo — em discussões e pretensos debates — colocações e posturas que, para dizer a verda...